O dia em que um Embraer 190 salvou o aeroporto mais isolado do mundo de ficar sem voos

Gabriel Benevides

 Considerado no passado como o aeroporto mais inútil do mundo, o primeiro protótipo do Embraer 190 mudou os rumos do aeroporto da ilha de Santa Helena, tornando as suas operações viáveis e seguras.

Foto: St Helena Airport

Localizada no Oceano Atlântico Sul, a Ilha de Santa Helena ficou famosa por ser o último paradeiro do imperador francês Napoleão Bonaparte, onde ele permaneceu exilado até o fim da sua vida em 1821, esta e outras histórias mostram a grande importância da ilha, que aliás, conta também com o animal terrestre vivo mais antigo, trata-se de uma tartaruga-gigante-das-seicheles batizada de Jonathan, que já alcançou os 182 anos.

Curiosidades da Ilha

Com 5 mil habitantes, a Ilha de Santa Helena possui a peculiaridade de ser um dos territórios ultramarinos britânicos mais isolados e dependentes do Reino Unido, mas que possui a importância de ser um local estratégico para os britânicos. Para se ter uma ideia, Angola é o país mais próximo da ilha, sendo separados por “apenas” 1.200 km, já a  Ilha de Ascensão, é a ilha a mais próxima, com 1.125 quilômetros de distância.

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Com o passar dos anos e o avanço tecnológico, o uso de aeronaves tornou-se o meio de transporte transatlântico mais rápido, mas nem isso foi o suficiente para que a Ilha de Santa Helena ficasse mais acessível, pois além da ilha não possuir praia por estar localizada em um terreno elevado, possui um relevo de rochas vulcânicas.

Para piorar a situação, o único meio para se chegar até a ilha era através do navio Royal Mail St Helena, o que tornava o acesso na ilha bastante demorado até a Cidade do Cabo, com uma duração média de 5 dias de viagem em alto mar, mas com o passar dos anos, manter o Royal Mail St Helena acabou se tornando mais caro e inviável, levando o governo britânico a realizar um amplo estudo para a construção de um aeroporto na ilha.

Em setembro de 2008, o Governador do Conselho de Santa Helena concedeu permissão para o início das obras do Aeroporto e infraestrutura relacionada. O contrato com a Design, Build and Operate St Helena Airport foi concedido à uma construtora sul-africana em 2011 e assinado em 3 de novembro de 2011, dando uma esperança para o fim das longas viagens marítimas. 

Após todos os estudos e parcerias com empresas privadas para a construção do novo aeroporto, o projeto estava pronto, mas um detalhe despercebido quase jogou por terra todo o investimento do novo terminal, já que durante as obras não foram abordadas as tesouras de vento (windshear) que eram constantes na ilha, principalmente durante a aproximação da pista 20, colocando em dúvidas não só a inauguração, mas o pleno funcionamento do aeroporto, que ironicamente acabou sendo apelidado como “o aeroporto mais inútil do mundo”. 

Voos de teste como o divisor de águas para o futuro do aeroporto

Boeing 737-800 da Comair Foto: St Helena Airport

Apesar de o Aeroporto de Santa Helena ter sido inaugurado em junho de 2016, os primeiros testes de voos em curso envolvendo um jato de médio porte iniciou-se no mesmo mês com um Boeing 737-800 de matrícula ZS-ZWG da companhia aérea sul-africana Comair.

Durante a realização dos testes, percebeu-se que os ventos eram muito fortes durante a aproximação, pincipalmente pelo fato do 737 estar operando praticamente vazio, mas com os seus limites de vento cruzado acima do limite habitual, obrigando-o a pousar em todos os testes praticamente de lado por conta das ventanias, o que acabou inviabilizando o uso do 737 na ilha que possui uma pista com 1.950 metros de comprimento, fazendo a Comair desistir de operar na ilha.

Como solução provisória, optou-se por realizar os pousos pela pista 02, apesar de não ter o problema de windshear, o pouso pelo lado sul coincidia justamente com a direção do vento, e assim, as aeronaves pousariam somente com vento de cauda, sendo que o recomendável é o vento de proa (contra o vento) para um pouso seguro.

Fortes ventos dificultaram a operação do Boeing 737-800 na ilha, colocando em cheque o seu futuro

Já que um Boeing 737 estava operando a beira do seu limite operacional, tendo o vento e pista como pontos desfavoráveis, a quem recorrer?  

Primeiro protótipo do Embraer 190 entra em cena

Foto: Flightradar24

Sabendo da necessidade da operação de um jato adequado no aeroporto de Santa Helena, a Embraer enviou para ilha em janeiro de 2017 o seu primeiro protótipo do E-jet 190 de matrícula PP-XMA para realizar coletas de dados sob condições adversas, o que felizmente acabou trazendo resultados positivos e mudou os rumos do aeroporto que antes era visto como um elefante branco e agora, estaria com o sinal verde para realizar operações comerciais regulares.

Na ocasião, a Embraer lançou um vídeo com detalhes da missão especial que mudou para sempre o rumo de uma das ilhas mais isoladas do mundo, veja no vídeo abaixo:

Uma nova realidade

E190 da Airlink durante operação no Aeroporto de Santa Helena

Após o sinal verde para as operações com um jato, os serviços aéreos comerciais iniciaram em 14 de outubro de 2017 com um Embraer 190 da sul-africana Airlink. A companhia operou na época um voo semanal ligando Santa Helena à África do Sul, além de uma frequência mensal ligando Santa Helena à Ilha da Ascensão.

Curiosamente, antes de iniciar as suas operações, a Airlink realizou um total de 13 testes de voo no aeroporto de Santa Helena com procedimentos de toque e arremetida (TGL) para certificar que o Embraer 190 estaria pronto para operar o seu mais novo destino.  

Apesar do Embraer 190 de primeira geração ter sido primordial para as operações no Aeroporto de Santa Helena, em 11 de fevereiro de 2018, a Embraer retornou à ilha a bordo do E-190 E2 para demostrar e dar o recado que a nova geração de jatos do fabricante brasileiro também é capaz de operar na ilha.

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