60 anos do acidente aéreo protagonizado pelo piloto Milton Terra Verdi

Texto e fotos por Alex Pelicer.

Quando o Cessna 140, matrícula PP-DOO, percorreu a pista e deixou o solo do aeroporto de Corumbá (CMG) no dia 29 de agosto de 1960, às 13h30, o piloto Milton Terra Verdi e o cunhado, Antônio Augusto Gonçalves, planejavam fazer mais um pouso antes de chegar ao destino final, a cidade de Santa Cruz de La Sierra (VVI), na Bolívia. Mas, após quase quatro horas de voo, desorientados e com pouco combustível, a única opção encontrada foi pousar em pequena clareira naquele ‘mar verde’ de árvores da densa floresta amazônica, já em território boliviano. Quando as rodas do pequeno monomotor tocaram o solo emaranhado de raízes, ambos não imaginavam que ali eles viveriam seus últimos dias. A aeronave só seria localizada pela Força Aérea Brasileira (FAB) quatro meses depois, na última semana de dezembro daquele mesmo ano.

Após a parada total da aeronave e o corte do motor, às 17h15, restavam apenas os sons da selva naquele dia que começava a escurecer. Milton e Augusto sabiam que a situação era extremamente crítica, pois o alimento era escasso – um único sanduíche -, nenhuma reserva de água e apenas uma garrafa pequena de refrigerante. Naquela época, não existiam aerovias e a navegação era visual, sem auxílios de rádios ou GPS. A rota estava traçada em um mapa de papel, mas sem referências no solo e os fortes ventos fizeram o avião desviar da trajetória planejada. 

O mapa que antes servia de navegação, foi transformado em uma espécie de diário, onde Milton começou anotar todos os acontecimentos. 

Segunda-feira – Aterrissamos nesta vargem do dia 29/8/60, estamos com gasolina para somente 5 minutos de voo, à uma hora que procurávamos um lugar para descer, pois tínhamos conosco um galão de 20 litros de gasolina, passamos maus momentos pois a gasolina estava no fim, e só víamos mato fechado. Avistamos esta vagem, como se fosse um milagre de Deus. Descemos bem e estamos tomados de um cansaço geral logo escureceu, após termos feito um reconhecimento do terreno, tínhamos duas coisas em mente, nossa família e a possibilidade de decolarmos no dia seguinte”.

Esta foi a primeira de uma série de relatos transcritos. No amanhecer do dia seguinte, sem qualquer tipo de ferramenta, os dois homens tentaram buscar por um riacho, mas era quase impossível desbravar a mata virgem sem um facão. A tentativa exigia esforço, o que aumentava a sede. No oitavo dia, tomado pelo desespero causado pela terrível sede, Augusto tomou uma garrafa do combustível do avião. 

Terça-feira, 6/9/60 – Dormimos mais ou menos. Sonhei muito com água esta noite. Estamos muito fracos e o dia de hoje promete fazer muito calor. Já tentei tomar urina, mas não foi possível. Tem um sabor de sal-amargo […] O Augusto se desesperou e tomou uma garrafa de gasolina como se fosse água. Passou muito mal a noite”, relatou Milton nas anotações.

No dia seguinte, 7 de setembro, Augusto não resistiu e morreu. Milton passaria quase dois meses sozinho e completamente isolado. Até aquele momento, nenhum órgão da aviação civil brasileira ou boliviana tinha notado o desaparecimento do Cessna 140. Sozinho, Milton travava uma luta contra a solidão, a fome e a sede. Quando chovia, ele conseguia armazenar água e tentava encontrar algum alimento, mas pouca coisa era comestível. 

Em uma das anotações, Milton diz que ouvia sons de motores, mas as aeronaves estavam altas demais para ver aquele pequeno monomotor na clareira. 

Informações desencontradas

Estranhando a falta de comunicação e a demora do retorno dos jovens, no final de setembro, Manoel de Oliveira Verdi, pai de Milton, procurou a polícia para notificar o desaparecimento dos rapazes.  Erroneamente, a família recebe a informações de um sargento ligado ao Departamento de Aviação Civil (DAC) – hoje a Agência de Aviação Civil (Anac) – de que o Cessna 140 havia pousado em Santa Cruz de La Sierra. A falsa notícia fez com que a calmaria retornasse ao coração aflito dos familiares. Mas, dias depois, o serviço de resgate aéreo da Força Aérea Brasileira (FAB) comunicou o equívoco e confirmou que o paradeiro do avião era desconhecido.

A família foi até Corumbá/MS e, após tomar conhecimento da rota Cessna 140, o pai de Milton viajou até o Rio de Janeiro, sede do Serviço de Resgate Aéreo (SAR) da FAB. O órgão alegou que não poderia fazer nada, porque o território onde havia ocorrido o desaparecimento era de responsabilidade da Bolívia.

Aflito, o pai procurou a unidade do SAR do estado de São Paulo, mas foi informado de que as equipes de resgate só poderiam seguir para Bolívia com autorização do SAR do Rio de Janeiro. O “empurra-empurra” entre São Paulo e Rio de Janeiro se estendeu por mais de um mês.

Neste período, a história chegou até os veículos de comunicação, mas os fatos eram sempre distorcidos. Um jornal impresso carioca destacou que Milton e Augusto eram contrabandistas. Outro chegou a noticiar que o Cessna havia sido localizado pela FAB após 453 horas de buscas, mas, na verdade, nenhum avião ou helicóptero de resgate ainda tinha saído do chão. 

Setembro já tinha ficado para trás, outubro estava chegando à segunda quinzena, e os desencontros de informações continuavam. Ao recorreram às autoridades bolivianas, uma vez que não tinham ajuda das brasileiras, familiares de Milton e Augusto tiveram outra decepção, quando o país vizinho alegou que pouco poderia fazer, por conta de greves que estavam acontecendo na Bolívia.

Enquanto isso, isolado e fraco, Milton esforçava para rabiscar algumas linhas. Nas letras tremidas, ele descrevia a saudade da esposa e dos filhos, anotava receitas de pratos que desejava comer caso voltasse para casa, também se lembrava de datas importantes como o aniversário do casamento. Mas, já bastante debilitado, ele escreve as últimas palavras no dia 6 de novembro. “Hoje faz 70 dias que sofro aqui, minhas forças se acabaram por completo, minhas carnes e minhas reservas de energia se esgotaram e minha pele está ficando roxa, creio que está chegando o fim, lutei e sofri muito para resistir, mas tudo tem seu dia”. 

O descaso com o desaparecimento do Cessna era tão grande, que no final de novembro, a família de Milton e Augusto foi informada que as equipes de resgate aéreo da FAB se mobilizavam para procurar um avião americano desaparecido no Peru, próximo à fronteira com o Brasil e, somente quando as equipes retornassem desta missão, eles passariam pela rota traçada por Milton.

Descrente, Manoel foi informando no dia 10 de dezembro, que uma das equipes da FAB tinha localizado o Cessna 140, no dia 2 daquele mês, mas nada fizeram a não ser anotar as coordenadas geográficas e retornar para o Rio de Janeiro. O SAR ainda informou que o avião estava intacto e com sinais de sobreviventes, porque existiam peças de roupas sinalizando setas, procedimento comum adotado pela tripulação de aeronaves acidentadas.  Familiares comemoram, e muito, a notícia.

Acesse a próxima página abaixo para continuação.

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