Pioneirismo no spotting brasileiro: Vito Cedrini

Quando falamos sobre o hobby de spotting aeronáutico no Brasil nos dias atuais, nem parece que a ‘vida fácil’ que os spotters levam hoje em dia com os aeroportos promovendo eventos, FlightRadar24 e outras formas de saber os movimentos, era praticamente impossível décadas atrás. Isso tudo na verdade é bem recente e começou com um spotter day realizado em Confins (CNF), na época ainda em transição da Infraero para a BH Airport, no dia que o Brasil perdeu de 7×1 para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014.

Depois no mesmo ano, a Infraero realizou no Recife (REC) seu segundo spotter day. E com os aeroportos sendo privatizados, viram o potencial que o marketing gratuito poderia gerar para o aeroporto. Em 2017, o Contato Radar realizou o primeiro Spotter Weekend, com um final de semana de fotos no principal aeroporto mineiro, em parceria com a Força Aérea Brasileira (FAB) e a BH Airport.

Porém a prática desse hobby no Brasil não é recente, e muito antes do que muita gente imagina. Já pensou em ter visto e fotografado BAC 111, Constallation, Super Constallation e até mesmo o Caravelle? DC-3 e BAC-111 da Sadia, e outras diversas aeronaves?

São aeronaves que marcaram a história da aviação brasileira e tudo isso passou pelas lentes do Vito Cedrini, que é o spotter pioneiro no Brasil. Cedrini fotografa desde os anos 60, tempos que a maioria dos spotters nacionais nem tinham nascido ainda ou eram muito jovens.

Fizemos algumas perguntas para o Cedrini, confira:

Contato Radar (CR): Quando começou sua paixão pela aviação?

Vito Cedrini (VC): Conheci na escola um colega cujo pai era piloto da Cruzeiro do Sul e voava os Convair e passamos a falar sobre aviões.

CR: Quando começou o interesse pelo hobby de spotter, como era conhecido na época e as dificuldades (fotos em filmes, seguranças, pouco conhecimento do setor sobre o hobby)?

VC: Em 1960 comecei a escrever para empresas aéreas solicitando fotos de aeronaves. Mudei-me para São Paulo ao final desse ano quando meu Pai for trabalhar na Real Aerovias e comecei a frequentar o Aeroporto de Congonhas. Todavia só comecei a fotografar em torno de 1965.

Dificuldades eram, o alto preço do material fotográfico, sejam os filmes que revelações, má qualidade de algumas lojas que revelavam os filmes.

Incompreensão de ter um hobby tão estranho e muitas vezes “suspeito” pois éramos poucos, eu só conhecia um ou dois outros, e as constantes proibições de fazer fotos em aeroportos.

CR: Qual foi sua primeira câmera?

VC: Uma câmera Agfa do meu Pai, que utilizava filme 120 e fornecia negativos 6×9.

Regulava a câmera no “chute”, sabia que o foco era sempre “ifinito” mas a “abertura” da lente e a “velocidade” tive que dominar aos poucos. Meu sonho de consumo era ter um “fotômetro” mas era muito caro.

Depois disso já retornado para o Rio de Janeiro, meu Pai me deu uma câmera Yashica D que fornecia 12 exposições por filme com negativos 6×6.

CR: Quais os principais momentos marcantes enquanto fotografava?

VC: Marcantes foi quando comecei a trabalhar, comprar a primeira câmera ASAHI Pentax SP e posteriormente uma lente 135mm e outra 200mm e depois mais uma Pentax SPII.

Marcava ainda nessa época o “é proibido”, “não pode”, “está fotografando o que?”  “Para que uso?” E as ameaças de tomar filme e ser detido.

CR: Como foi estar em momentos marcantes na história do Galeão como o primeiro voo do Concorde e acidente do 747 da Air France?

Primeiro dia do Concorde foi marcante, eu estava trabalhando e quando pude me liberar, ele já tinha pousado, mas o vi de perto. Já o tinha visto e fotografado anteriormente quando dos voos de testes no Galeão, primeiro com a pintura de fábrica e depois com as pinturas Air France de um lado e British Airways do outro.

Quando do acidente do 747 eu estava de férias e retornei ao aeroporto no dia seguinte, quando a aeronave ainda estava no pátio do Terminal antigo mas já com os emblemas e matricula pintados por cima.

CR: Como foi alinhar os seus trabalhos na aviação com o hobby?

Sem dúvida nenhuma muito me ajudou, pois eu “morava” no aeroporto e conseguia ver a maioria dos movimentos interessantes, se bem que muitas vezes, devido ao trabalho naquele momento eu via, mas não tinha como ir fazer fotos por estar ocupado.

O conhecimento com as autoridades aeroportuárias, também foi “melhorando” e eu já não era encarado como o “maluco que gosta de fazer fotos de aviões”.

CR: Se pudesse voltar no tempo, qual momento no spotting gostaria de viver novamente com a tecnologia que temos atualmente?

A década dos anos 60 e 70  quando a aviação era muito mais interessante com a diversidade de aeronaves. Seja a pistão ou que já na era do jato e o grande número de empresas aéreas existentes.

CR: Qual maior aprendizado com o hobby até hoje? O que você daria de conselho para os novos spotters?

VC: O contato com os Spotters de outros países, troca de cartas e fotos e informação (não tinha Internet) e as “aventuras” para fotografar.

Quanto a novos Spotters, eu os incentivo sempre, costumo dizer que ser “spotter” não é só fotografar, fazer 30 fotos de uma única aeronave, apagar as 29 ruins e colocar uma no Airliners ou outro site para “se exibir” tipo “já tenho 50 fotos publicadas.” É interessante conhecer as aeronaves, os vários tipos de um mesmo modelo e diferenciá-los, tentar estudar de onde vem as empresas, de quais países, que língua falam. Em resumo aprimorar também a sua cultura geral e linguística.

Mas o mais importante é o companheirismo , o “estarmos juntos”, as risadas, a troca de conhecimentos e experiências. Compartilhar informações de quando a aeronave“X” da empresa “Y” irá chegar, em qual horário, e não esconder dos amigos de hobby, com aquele intuito de “só eu terei essa foto”. Lembrar que é um hobby, não um meio de vida.

Importante também respeitar as regras nos aeroportos, não invadir, não “sujar” a área e o hobby ,para não prejudicar outros colegas amantes do dele. Tipo o que foi feito no Aeroporto Santos Dumont no Rio, aonde uns poucos “espertos” inviabilizaram a área para todos, prejudicando-nos para sempre com a proibição de fazer fotos no local.

Na próxima página, mais fotos e curiosidades trazidas pelo Vito Cedrini. Confira!

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