O dia em que um Boeing 707 da Transbrasil decolou com 3 motores, literalmente

Boeing 707 PT-TCP no Gate 14 em Recife, sem o motor 2 – Foto: Vicente Tadeu

Na tarde de 15 de Janeiro de 1987, o Boeing 707-365 da Transbrasil de matrícula PT-TCP, procedente de Salvador, realizando o voo TBA706, já se encontrava nos procedimentos finais de descida para pouso no Aeroporto Internacional Dos Guararapes, em Recife, quando um dos seus 4 motores caiu.

Foi quando por volta das 15h30, enquanto cruzava o nível de voo 070 e mantinha na sua proa o NDB de Olinda (OLD/380), a tripulação foi surpreendida pelo “súbito apagamento em voo”, em inglês “flame out”, do motor número dois. Na ocasião, estava no comando do jato o Comandante Guimarães.

Até aquele momento, nenhum dos três tripulantes no cockpit estavam, e dificilmente deveriam estar, cientes de que aquela anomalia tratava-se de um raro caso de desprendimento de um motor inteiro da asa em pleno voo.
O motor número dois simplesmente soltou-se de seu suporte sob a asa esquerda.

Ninguém a bordo sentiu absolutamente nenhum tranco, chacoalhada ou movimento anormal no momento em que o motor se soltou, a não ser pelo fato curioso de que os pilotos só ficaram a par da real situação do por conta de um passageiro que através de sua janela, viu quando o reator caiu, ou ao menos se deu conta da falta do motor.

Boeing 707 PT-TCP no pátio em Recife – Foto: Vicente Tadeu

Provavelmente sem acreditar no que acabara de ver, tratou de avisar a comissária chefe, e esta por sua vez foi (sem tempo perder) diretamente à cabine de comando no intuito de avisar aos tripulantes que estavam no cockpit. Ao chegar no lá, avisou do ocorrido e até aquele momento, tudo não passava de “um simples caso de apagamento de motor em voo”.

Houve uma grande preocupação envolvendo os pilotos e engenheiro de voo, porém, nenhum pedido de emergência foi declarado ao controle de tráfego aéreo e o pouso ocorreu sem a mais dificuldades, como se nada houvesse acontecido. Tanto que o Boeing 707 era aguardado pela equipe de solo no antigo Gate 07, mas ao livrar a pista em uso pela “taxiway lima”, prosseguiu diretamente para o Gate 14 (o último box, localizado na zona remota do pátio de estacionamento daquela época) aonde lá permaneceu por um longo período.

Boeing 707 PT-TCP no Gate 14 em Recife – Foto: Vicente Tadeu

Após vários dias estacionado na posição 14 o Boeing foi rebocado para a cabeceira da antiga Pista 33, onde hoje existe o hangar da Weston Táxi Aéreo. Permaneceu neste local durante alguns meses e durante esse período era bem notória a quem trafegasse na avenida adjacente, a bonita deriva colorida do PT-TCP.

Durante esse tempo, decidiu-se que seria de melhor alvitre transladar o Boeing para Brasília operando o mesmo com apenas os três motores remanescentes, ou seja, decolando de Recife trimotor. A partir daí, o Boeing foi, mais uma vez, rebocado de volta para a posição 14 do pátio, onde foram efetuados alguns procedimentos para casos como aquele, que são permitidos pela regulamentação.

Asa esquerda sem o motor 2 – Foto: Vicente Tadeu

Foi removido o “pylon”, peça que serve de suporte do motor na asa e em seu lugar foram condicionados (utilizando-se de rebites, chapas e etc), vários sacos contendo areia que totalizaram um peso de uma tonelada, que servia para simular o peso do motor faltante.

Finalmente chegara o dia do voo de translado, realizado sob as responsabilidades dos Comandantes Alfredo e Nakamura que o Boeing 707 da saudosa Transbrasil efetuou essa decolagem inédita no Recife.

Ao chegar em Brasília, o Boeing em questão foi transformado em cargueiro e ainda operou por muitos anos na própria companhia, principalmente em voos da Rede Postal Noturna.

Antes de voar para a empresa de Omar Fontana, fundador e dono da Transbrasil, esse mesmo Boeing já havia sido operado por alguma outras empresas, como British Airways, Transavia e Bíman Bangladesh.

Após cinco anos de operações como cargueiro, essa aeronave foi dada como perdida, após sofrer um incidente em Manaus. Segundo o relatório de acidentes e incidentes emitidos pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), a aeronave decolou de Manaus com seu peso de decolagem bem acima do máximo permitido e assim, só conseguiu sair do chão no final da pista vindo a colidir com a antena de ILS.

Com o sistema hidráulico avariado devido ao choque, ao retornar para o pouso de emergência, não conseguiu parar dentro dos limites da pista, isso devido a um dos trens principais ter colapsado durante o pouso, acabando parar dentro do mato, avariado. Não houve feridos mas o reparo para pôr em condições de voo o PT-TCP ficaria inviável.

O motor que caiu foi encontrado em um canavial, no interior do estado. Não houve feridos ou danos em solo.

Colaborou: Cesar Novaes e Vicente Tadeu


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