Com ‘malha aérea essencial’, ATR transforma-se em peça fundamental para a Azul Cargo

A chegada dos primeiros casos de COVID-19 ao Brasil gerou um cenário sem precedentes no mercado nacional de aviação comercial; a demanda simplesmente evaporou, trazendo consigo voos vazios e a necessidade de uma rápida reação por parte das companhias aéreas.

A reação veio na forma de uma “malha aérea essencial” para o mês de abril, desenhada conjuntamente entre governos Federal e estaduais, a ANAC e as próprias empresas aéreas. Em relação à malha originalmente planejada, esta representa uma redução de aproximadamente 91% em número de voos, e deve ser estendida para maio.

Contudo, se a demanda de passageiros caiu dramaticamente, a demanda por cargas não acompanhou essa tendência na mesma proporção. Segundo a ANAC, em março, mês no qual a pandemia chegou ao país, o número de passageiros domésticos caiu 35,5%, enquanto o volume de carga caiu 17,7%.

Como a Azul se posiciona em relação à suboferta no transporte de cargas

Essa tendência de redução na oferta superior à redução na demanda por transporte de carga se traduz em suboferta em todos as aéreas, e isso inclui a Azul e o seu braço de cargas, a Azul Cargo Express. Ao Valor Econômico, o CFO da aérea, Alex Malfitani, confirmou que “a demanda de cargas não caiu”.

O CEO da companhia, John Rodgerson, afirmou em uma live ao InfoMoney que “a receita [da Azul Cargo] não caiu muito; caiu, porque eu tenho menos voos, mas não caiu tanto. Isso quer dizer que o yield [valor pago por quilômetro voado] que nós estamos cobrando é mais alto, porque nós temos menos espaço”.

Isso gera um dilema para a empresa, que ao decidir por realizar ou não um voo, deve balancear a falta de passageiros e a demanda elevada por transporte de carga. Para maio, foi anunciada a retomada das operações em nove destinos. Não à toa, um release afirmou que esses voos possibilitarão “o transporte de cargas importantes, como medicamentos e equipamentos de proteção individual”.

Para atender parcialmente à demanda reprimida pela falta de voos, além do par de 737-400 cargueiros que possui, a Azul vem lançando mão de um trunfo; os seus ATR 72-600QC — QC significando Quick Change, ou “mudança rápida” em inglês.

Essa variante do ATR passou a ser recebida pela Azul em 2015. A grande vantagem do “QC” é que ele pode, em menos de uma hora, ter todos os seus assentos removidos para que possa transportar carga. Sua capacidade é de até seis toneladas, segundo a Azul.

Dada a falta de voos regionais durante a crise (apenas dois ATR estão realizando voos com passageiros), a Azul reservou cinco de seus “Quick Change” para operarem voos de carga em tempo integral, de acordo com a demanda e necessidade por fretamentos.

Assim, enquanto os 737 realizam missões de alta densidade e distância maior, os ATR ficam dedicados a missões mais curtas ou que exijam menor capacidade. Com isso, a frota da Azul Cargo Express subiu de duas aeronaves para sete em um momento em que a demanda por cargas não consegue ser plenamente atendida pelos voos de passageiros.

Em uma pesquisa feita com dados do FlightRadar24, serviço de monitoramento de voos, é possível observar os mercados atendidos pela frota de cargas da Azul — incluindo-se aí os ATR — na semana compreendida entre 20/04 e 26/04.

Na referida semana, a Azul operou 53 voos com as aeronaves 100% cargueiras, sendo 26 com os 737 e 27 com os ATR 72-600QC. Foram atendidos 16 aeroportos. Destes, três não estão recebendo voos de passageiros da Azul durante a pandemia: Corumbá, Galeão e Guarulhos.

No gráfico de fluxo abaixo, quanto mais larga a linha, mais capacidade foi disponibilizada na rota correspondente, considerando-se seis toneladas para o ATR e 20 para o 737-400F. Note que, em alguns voos de reposicionamento de aeronave, é possível que não tenha sido transportada carga alguma.

Mapa de fluxo representando a capacidade de voos 100% cargueiros da Azul entre 20/04 e 26/04. Os dados foram obtidos pelo FlightRadar24 e o mapa criado pelo aplicativo flowmap.blue.

Como esperado, a rota entre Campinas e Manaus segue sendo, com larga vantagem, a rota de maior capacidade. Entretanto, é possível ver uma maior capilaridade em relação ao período pré-crise, onde os 737 atendiam basicamente Campinas, Manaus, Recife e Fortaleza. Grande parte dessa capacidade foi possibilitada pelo ingresso dos ATR no sistema.

Desta forma, a Azul consegue maximizar a eficiência de sua frota em um momento onde minimizar custos é fundamental. Sendo o ATR uma aeronave mais econômica, é uma escolha natural utilizar o “QC” em um fretamento de cargas. Significa evitar o uso de um E195 ou A320neo, que têm custos de operação mais altos, levando o porão cheio, mas a cabine de passageiros vazia.

Ao contrário do negócio de passageiros, a unidade de cargas da Azul registrou crescimento em março em relação ao mesmo mês do ano anterior. O volume de cargas registrado foi 26% superior, mesmo com uma oferta menor de voos de passageiros e portanto menos espaço nos porões.

Em comunicado à imprensa quando do anúncio dos números há duas semanas, a diretora da Azul Cargo Express, Izabel Reis, afirmou que “sabemos da importância do nosso negócio para a economia e para a saúde, por isso continuaremos disponibilizando a eficiência da nossa entrega e a capilaridade da nossa rede para atender a todos os pedidos”.


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