A falta de interesse na preservação da história aeronáutica brasileira

Quando falamos quem inventou o avião, os brasileiros são os primeiros a falar: foi um brasileiro! Porém, qual o protagonismo na preservação de toda a memória da aviação no Brasil?

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Na última semana, correu pelas redes sociais, o crime contra um dos capítulos da história da aviação brasileira, a destruição de um DC-3 nas cores da VARIG, matrícula PP-VBF, que ficava no Riogaleão (GIG).

No Brasil, o que encontramos com certa facilidade, são algumas aeronaves expostas “espetadas” em praças públicas e entradas de cidades, na sua grande maioria são exemplares que voaram na Força Aérea Brasileira (FAB). Em todo o país, que diz ser o pioneiro na aviação com Santos Dumont, existem apenas dois museus principais: MUSAL (Museu Aeroespacial, no Rio de Janeiro) que seu principal acervo são aeronaves usadas pela FAB, já que é mantido pelo órgão; e o Museu TAM (em São Carlos), com dezenas de aviões civis e militares, porém encontra-se fechado e sem nenhuma perspectiva de retorno.

Outros países pelo mundo são sim verdadeiros exemplos de como preservar não só a história de seu próprio país mas também da indústria aeronáutica. Para este começo de artigo/crítica nem precisamos ir muito longe, com o nosso vizinho Chile.

Em 2018, o Ponte Aérea esteve no Museu Aeronáutico de Los Serrillos, em Santiago do Chile. Este museu é totalmente financiado pela Força Aérea do Chile, e é um verdadeiro exemplo de conservação da história. Por lá, encontramos desde o sonho do homem nas cavernas querendo voar iguais aos pássaros, os pioneiros mundiais nas tentativas de criar um meio de transporte que voasse mais pesado que o ar, tendo os Irmãos Wright e o Santos Dumont como principais, até aeronaves a jato utilizadas na segunda guerra mundial. Existem várias aeronaves de grande importância na aviação global expostas, e algumas delas é possível até mesmo visitar os seus interiores.

Todo o museu, aeronaves, peças etc são altamente bem cuidados pela Força Aérea do Chile, e por mais que você queira contribuir fazendo uma doação financeira na saída, os mesmos agradecem a gentileza, recusam o dinheiro e apenas pedem que façam um elogio ou crítica sobre o museu. Ainda você ganha de brinde alguns adesivos temáticos.

Nos Estados Unidos, além da enorme quantidade de museus para preservação de suas histórias, vários aeroportos, principalmente os maiores, possuem aeronaves preservadas para o público poder conhecer. Como é o caso de Orlando (MCO) que possui um B-52 aposentado totalmente livre para poder chegar perto. Nova York (JFK) possui um hotel todo temático da TWA com inclusive um Lockheed Constallation inteiramente reformado.

Isso sem contar a grande variedade de aeronaves presentes no Museum of the Flight em Seattle, mantido pela fabricante Boeing, que você pode conferir dos primeiros modelos fabricados pela Boeing até o mais moderno 787, assim como diversos outros modelos de outras fabricantes. Outra referência, é o Delta Flight Museum em Atlanta (ATL), que conta com o acervo de suas principais aeronaves que fizeram parte da frota da companhia Delta Air Lines.

Na Europa, diversos museus de aviação estão disponíveis para visitação. Na Alemanha por exemplo, é possível visitar os Museum Speyer e o Museum Sinsheim, que além de dezenas de aeronaves expostas, você pode contar com o ônibus espacial Buran (concorrente do Space Shuttle americano), Boeing 747-200 da Lufthansa fixado a mais de 40 metros de altura que é possível andar nos porões, cabines de passageiros até na sua própria asa. Em Sinsheim, os clássicos Concorde e TU-144 (Concordovisk) que marcaram a era da aviação comercial supersônica. Os alemães inclusive vieram até o Brasil para resgatar o Boeing 737-200 matrícula PT-MTB, que foi sequestrado em 1977 quando voava na Lufthansa. O jato irá ser restaurado e preservado também em museu.

De volta ao Brasil, todos os aviões considerados velhos por leigos, não possuem utilidade nenhuma. É o que conseguimos entender da nota oficial da FENTAC (Federação Nacional dos Trabalhadores da Aviação Civil) ligado à CUT, sobre o desmanche do histórico PP-VBF, que serviu à Força Aérea Americana (USAF) e depois foi convertido para aeronave civil voando na VARIG posteriormente. Segundo a FENTAC, devido as corrosões e os custos de alocação impostos pela Riogaleão, que administra o aeroporto, a melhor solução para eles era a destruição da mesma. Os mesmos tambem mencionam que a aeronave foi ofertada para o MUSAL porém o museu recusou o recebimento.

Em Lagoa Santa-MG, encontra-se o Boeing 737-200 matrícula PP-SMA, pioneiro do modelo na América Latina que voou na VASP desde o final dos anos 70 quando foi fabricado e entregue à companhia até 2003, quando teve seus motores confiscados e retirados em Confins (CNF) pela Justiça devido as dívidas com os credores da VASP. Os novos donos do PP-SMA querem transformá-lo numa espécie de outdoor para propaganda de bebidas, compondo um espaço empresarial novo da cidade. Sendo que com investimento certo, seria possível restaurar completamente o avião para deixar aberto à visitação. Atualmente, o jato está sem as suas asas e estabilizadores horizontais e vertical, depois que foi transportado de onde estava em Vespasiano-MG.

O PP-SMA antes de ser transferido para Lagoa Santa-MG.

Até quando a história aeronáutica brasileira ficará atrelada à “sucatas” e não teremos um museu aeronáutico sério e capaz de preservar a história da aviação brasileira? Até quando burocratas, pessoas sem conhecimento e ignorantes continuarão destruindo a história da nossa indústria aeronáutica?

Abaixo o vídeo do Gabriel Toledano do canal Aerocast que explica um pouco mais sobre a história desse guerreiro DC-3 destruído:

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